Acordou de seu sono.
Acariciou seu rosto como que se dizendo: “bom dia”!
Esticou-se, espreguiçando-se...
Foi somente depois disso que finalmente abriu os olhos. Convenceu-se: estava só.
Aquela cama que fora feita para dois corpos apenas continha um.
Sentia saudades daquele que jamais deitara ali. Buscava o perfume, as marcas, os afetos... mas como poderia? Não estivera com ele naquele lugar.
Levantou-se e caminhou até o banheiro, onde, em frente ao espelho observava cada mudança em seu rosto com o passar dos anos.
Mais sardas. Malditas sardas! Cada verão elas ficavam em maior número, imaginava o dia que ao descrevê-la diriam: “é uma mulher alta, magra, bem educada e resumindo... é uma mulher alaranjada, sendo uma sarda só!” Voltou ao mundo real e deparou-se com seu cabelo, agora bem mais curto, levemente ruivo (pra combinar com as sardas?), e não longo e loiro como anos antes.
Buscou, antes de entrar no banho, olhar seu corpo nu. Ele também, de certa forma mudara. Seu quadril tinha dois centímetros a mais que em sua juventude, seus pés já haviam se machucado muito, embora não tivesse nenhuma cicatriz. Mas sabia por onde, por quem seu corpo passara.
Fora casada. Não casou propriamente obrigada, mas também não foi o sonho realizado. Casou-se por ter engravidado. Uma história comum.
O triste, de tudo, foi ter casado para esquecer seu grande amor.
Enfim, não o esqueceu.
Teve seu filho, a quem amou mais que tudo. Que sacrificou muito para dar tudo que acreditava ser necessário para que tivesse uma vida equilibrada, confortável – outra história comum. Aturou durante anos uma vida medíocre, com pessoas hipócritas ao seu redor, mesquinhas e insuportáveis. Ela sabia que superaria isso, que estava acima de tudo e que um dia, se existisse justiça divina, tudo acabaria!
Sua fortaleza eram seus sonhos, suas madrugadas, seus textos...
Quando amanhecia o dia e o mundo real a convidava a sofrer ao lado do homem que respeitava a sua maneira, que sorria para os demais e chorava nos cantos do dia... ela respirava fundo e assumia sua interpretação. Em seu trabalho, se realizava, era ela mesma...
Chegou o dia, em frente ao espelho antes de seu banho que percebera sua trajetória triunfante. Lembrou-se de “Odisseia”, de Ulisses e seus vinte anos de aventuras e luta contra a morte para rever sua amada. Sim, no final tudo valeria a pena. Sim, valeu a pena.
Sob a água quente de seu chuveiro, sorria e chorava. Chorava por tudo e toda a tristeza vivida, dos infortúnios, das brigas, de todas as noites que se entregou a quem não queria, sonhando com a liberdade. Sorria por todas as vitórias conquistadas, desde sua independência, organização, liberdade...
Entendeu que seria perfeito sentir o perfume dele em sua cama, de ter podido entregar-se a ele com alma e corpo, que gostaria de ouvir sua voz lhe dizendo bom dia e como estava o tempo lá fora.
Seria perfeito, após tantas coisas, finalmente ter seus braços para passar o resto da vida. Seria perfeito, caminhar na Redenção com cachorros e discutir a matemática de Pitágoras, os pensamentos de Sócrates e ainda sonhar em um mundo melhor pra humanidade – claro, seria o que ela diria, argumentaria as possibilidades, ele diria das impossibilidades graças a sua incredulidade... ela apertaria os olhos, contrairia os lábios demonstrando que estava a contragosto de tudo aquilo, ele iria rir, dar-lhe um abraço, mas jamais concordaria com ela, pois era um descrente!
Seria perfeito, até mesmo todas as contradições.
Seria.
Embora já tivesse feito tanto, acabara de objetivamente abster-se de contatos. Ela tinha um objetivo: mostrar quem era, o quanto amava. A perfeição sempre depende da outra parte, pois são duas.
Vivera muito tempo com o marido que dizia que a amava, a seu modo, descuidado, relapso, egoísta, infantil, mas dizia que ela era seu tudo. Isso não foi possível pra ela. Não o amava a ponto de passar o resto da vida. Amava como se ama um ser humano: o que tiver ao meu alcance, água, comida, cobertores, um ombro amigo... mas mais que isso era importuno.
Não poderia coagir outra pessoa a essa prisão. Um amor egoísta só é tolerável as mães, do resto, ou você ama e se doa e recebe o que te dão, ou esquece...
Assim pensava ela, se ele, quisesse teria todo seu amor, se ele não quisesse, ela o guardaria. Ele jamais poderia dizer na velhice que ninguém o amou. Ele também não poderia dizer que ela o obrigou a ficarem juntos, sendo ele sempre que tivera as decisões de tudo.
Ela sempre buscou decidir tudo, dar a última palavra, saber tudo ou argumentar o suficiente. Por pior que fosse a situação e suas consequências, sempre as assumiu por decidir por elas. Nesse caso, era submissa as decisões dele. A única situação na vida que fora submissa de coração, mente e corpo era por ele.
Talvez, na vida dele, isso não era claro. Como assim, alguém, sem ganho aparente irá querer ficar comigo, um descrente, um niilista, um isso, um aquilo e mais uma lista de coisas para afastar a possibilidade de ser amado incondicionalmente.
Amor é algo estranho por desconfiarmos desse sentimento. Todo o resto é negociável, apenas o amor não o é, quem sabe seja isso que faça as pessoas não o entenderem. Negociamos o que comemos, paramos de beber, fazemos regime, fazemos partes de um trabalho e o outro faz a outra parte, eu limpo a garagem você faz o almoço... fazemos coisas e compensamos outras...
Amar não se dá por compensações. Vincular-se está na arte de saber doar-se e receber o outro. Não podemos receber apenas a parte que amamos, recebemos todo o resto, as virtudes e as amarguras, as alegrias e tristezas – quem sabe seja por isso que quando casamos nos perguntam se seremos fiéis na “alegria e na tristeza, na pobreza e na riqueza, na saúde e na doença”... é preciso saber se há vinculo forte pra aguentar tudo isso: a vida. Você, para amar alguém, antes de tudo tem que saber o que é vinculo amoroso, como se dá. A teoria ajuda a entender, mas o belo é vincular-se e aprender com a experiência de amar. Amar é não só não esperar nada em troca, é saber esperar o tempo que o outro precisa na precisão da sua capacidade de troca; numa troca que não é comercial, que não tem peso, não tem moeda.
Saber receber o amor é uma prova incontestável que sabe se amar. Saber amar é compreender que é capaz de estar integralmente com o outro sem sofrer ou perder a identidade, ao contrário, é identificar-se com o diferente. Eu, com o passar dos anos, aprendendo a amar pais, filho, amigos, alunos... digo que, não são os opostos que se atraem, são os opostos que se admiram por justamente entenderem que juntos, podem muito.
“Quero poder, com um olhar no meio de uma festa, dizer-lhe dos meus desejos. Quero, na fila do supermercado, com um sorriso prometer-lhe a noite. Quero poder, com um gemido, transmitir-lhe o prazer de estar com ele. Quero, em um só beijo, desejar o mundo!” Pensava isso após ter passado a mão no espelho branco de vapor do banho, como um mantra.
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