Do que somos feitos
Fico pensando do que somos
feitos.
Alguns dirão: cadeias de
aminoácidos... outros, de coração, mente, musculaturas e gordura... um tanto de
cálcio...
Mas há de saber que
sentimentos fazem parte de nós
Ou será nós fazemos parte de
sentimentos?
O que veio primeiro?
Acho, que, em nossa feitura
no útero de nossas mães, veio primeiramente o desejo, o sentimento de querer
aquela fecundação, portanto, penso que primeiro vieram os sentimentos de
acolhida, para depois a materialidade.
Lembro bem do dia que
engravidei, que sonhei com isso, que disse sim para aquele que se
materializaria em meu filho... era noite e tinha certezas...
Agora, seja noite ou dia, só
tenho incertezas quanto aos meus desejos.
Já mudei planos que pareciam
perpétuos, estou para largar o campo da licenciatura para ir para atrás de uma
mesinha burocrática. É um sonhozinhho pobre, frente as ideologias da
adolescência, não chega perto da paixão de educar. Mas se as coisas
permanecerão iguais, ao menos, que seja duradouro, que seja estável. Um cargo
público. Puxa, sempre recriminei os engomados e sórdidos homens e mulheres da
burocracia deste país. Mas lá vou eu, entendendo que minha vida já não
alcançará as satisfações de um sonho passado.
Então, depois de acreditar
veementemente em sentimentos, em alegrias, em sentido para vida, em missão na
existência humana, me encontro fatidicamente olhando para os pedaços de mim
mesma e querendo o que todos querem: garantias! Garantias de viver com
conforto, e não mais a casinha de sapê. Garantias de viver dando a qualidade de
ensino que o filho precisa ter, mais que merecer, pois isso poderá dar margem
de um futuro mais promissor.
Chega de devaneios. Basta os
sonhos do passado que se mostraram idiotas.
É necessário e urgente que
eu entenda que sonhos tem data de validade e que na vida adulta, amor, desejos
e devaneios são coisas de psicóticos! Coisa de gente que não cresceu.
Bom exemplo disso é: papai
Noel e Coelhinho da Páscoa. Eles nos são apresentados na mais tenra idade, pois
é preciso nos ensinar a sonhar, imaginar e a esperar por algo maior e fora de
nós mesmos. Quando atingimos certa idade, há os processos de ritos de passagem,
os primeiros são desfazer a imagem e vida desses personagens em nossas vidas,
afinal, não existem de fato. Depois, nós nos vingamos e o primeiro inocente que
aparece nós vomitamos a verdade. Não era pra dizer agora, nos dizem, deixa a
criança – ou seja, você não é mais uma – sonhar – ou seja, você perdeu a
credencial para sonhar. Aí você passa um tempo analisando fatos dos adultos e
não quer, nem amarrado, ser como eles. Então sua adolescência é marcada de
rebeldias. Aprende o que é amor – e digo, é só na adolescência que se ama! É lá
que observamos outro ser que parece nos preencher, que parece que o ar melhor
perto dela, que o mundo volta a ter cor. E nós nos doamos, nos esvaímos,
esvaziamo-nos para acolher todo ele... -, e sonhamos com um mundo só nosso,
perfeito.
Acaba, em algum momento o
amor ou a adolescência, ou ambos. E você observa que o mundo parecia ter cores.
Fica deprimido, mas precisa seguir. Até deparar-se com uma família que depende
de você, que necessita de seu trabalho, juízo e equilíbrio. Passa-se mais
alguns anos. E finalmente começa a ensaiar entendimentos: a vida não é bela. A
vida é cruel. Não há sucesso nos sonhos que traçou: há objetivos que deram
certo pela sua persistência, capacidade e um “toque do destino”. O resto, meu
amigo, é só o resto. Um amontoado de lembranças que teimam a existir para que
você se alimente delas e não desista de viver. Pois, um dia foi feliz, quem
sabe, no futiro, você volte a ser? Encontre aquele ou aquela que lhe fará
feliz?
Lamento, não encontrará
ninguém que o ou a fará feliz. Ou você se ajeita e é feliz por conta própria,
ou não é. Não há “outro lado da laranja”, você não é nem laranja! Não há alma
gêmea, há irmãos siameses, mas alma gêmea, é coisa pra quem crê em reencarnação
– eu não acredito nisso, logo, ninguém será meu gêmeo. Também não existem
pessoas a lhe fazer feliz, pois aprender a ser feliz com alguém é saber a sutil
diferença entre conviver e sobreviver. Conviver é saber que outro é um outro e
não sua extensão; saber sobreviver é aturar a pessoa por alguma questão que lhe
seja cara demais para causar efeitos colaterais.
Viver é para os fortes. Sonhar
para as crianças. Amor para os jovens.
Dedicação é aceitar o fardo
sem senti-lo.
Missão é aceitação sublime
do fardo trabalhado com dedicação.
Depressão é o olhar realista
e sem mais sentimento de apreço a essa mesma realidade. É uma tristeza em saber
que não há conserto. Que você não pode fazer nada para mudar.
Dar a volta por cima, é,
para além da triste realidade, a gente conseguir ir vivendo. Gostar do sushi,
da lasanha, da picanha correndo sangue... do papo animado dos amigos, das
madrugadas que passamos conversando e rindo da vida. É não perder o paladar,
apesar de em algumas vezes, meio que neuroticamente ou psicoticamente achara
que todo esse gosto vem da “Matrix”, que há alguém manipulando sua mente. De
fato, há, ela se chama mídia e depois de escutar “teatro dos Vampiros”, tem
certeza disso.
Bem, aí volto ao começo. Já
passei por todas essas fases. Semana passada, mesmo sabendo da minha realidade,
comi sushi como se fosse a última vez. Provei um molho de fungi que odiei, e um
picanha sangrenta, de dar náuseas até nos vampiros da saga crepúsculo!!! Mas eu
gosto disso. Me sinto bem e isso me basta.
Hoje, se dessem a pílula de
voltar a ter a doce ignorância novamente, eu a tomaria sem discussões
filosóficas.
Pois se o maior mal é a
ignorância, não pense que ela não seja a solução para todo o resto! É ela que
faz eleger a maioria dos presidentes. As pessoas voltam a se iludir. Eu voto.
Não anulo nada. Pois não acredito em nada disso. Sei que um estará no poder e
fará o melhor para si, não para o país, não para o planeta. Ele alimentará o
sistema, para usufruir dele.
Como uma pessoa da educação,
tinha a intenção de poder mudar isso. Não há como mudar. Pelo simples fato de
que os indivíduos assim não o querem.
Então, serei eu um Jesus
para salvar esse mundo, não, o último foi assassinado pelos seus! Quero apenas
viver o que me cabe e parar de azucrinar a vida alheia! Me conformar com as
atitudes, entrar no campo de tudo é normal, é só tentar se desviar das balas e
porretes, de resto, a pipoca estão boa e refrigerante gelado... segue o filme,
aumenta os som e dá um paratiquieto nos bacuris.
E somos feitos disso, oh:
Alegrias e desejos...
Tristezas e sofrimentos...
Entendimentos e aceitação.
E um dia após o outro, na
caminhada (in)certa que é essa existência.