Após viver muitos anos cercada por pessoas das quais não gostava, de roupas que não se ajustavam ao seu perfil, pilhas de livros que somente declaravam sua insegurança intelectual... Resolveu dar um basta.
Começou pelas roupas. Coisas que sua mãe lhe dava que não faziam o menor sentido, podiam ficar bem nela, mas não gostava e desejava ainda menos desapontar sua amada mãe. Mas, odiava aquelas situações!
Depois, deu um basta em algumas relações. Deixou literalmente de falar com elas. Não que apreciasse os rompimentos com palavras duras, preferia afastar-se e tentar ser educada. Contudo, algumas pessoas que não conhecem limites, deveriam agora entender que ela sempre os teve e quer, acima de tudo que conheçam bem o cercadinho.
Foi para os livros. Pilhas de material didático que mal se aproveitam duas páginas e que ela pode fazer melhor. Tenta ser capaz de não os ter e no final os olha e pensa: quanto desperdício!!!
Foi até o escritório e começou a limpeza. Ficou dois dias e teria mais um final de semana para concluir. Fazia parte de deixar para trás o que ficou para trás.
Agora só se preocupava com sua condição humana. Quem realmente era, o que queria para sua vida e como materializar cada coisa e quanto tempo para cada uma.
Ela era uma mulher prática. Podia viver até mesmo de aparências para evitar sofrimentos aos que amava. Podia suportar dores, amarguras, tristezas. Só não suportava seu medo.
Tinha um medo de não ser nada pra todos. Tinha medo de enfrentar o novo. Tinha pavor de ter que novamente dever favores a sua família que cobrava juros altíssimos para cada secar de lágrimas, quiçá, algo material.
Tinha com ela uma preciosidade da qual não queria que se maculasse com esse podre mundo. Um filho gerado com grande amor. Uma dedicação tremenda, da qual abdicou de seu grande amor para dar tudo que lhe era merecido. Atualmente, não podia mais sobreviver ao peso dessas decisões. Estava cansada de carregar tanta coisa. Queria fazer diferente, ter outro rumo, ter outras opções.
Sua mãe sempre lhe dizia que teria um fardo para sempre com esse filho. Que trabalhar em um segundo emprego lhe gastaria sua energia, não seria capaz de organizar-se. Que seria um total infortúnio.
Seu pai lhe dizia: “Espera mais uns anos, depois tu loqueia”, perguntou a ele se esperara o tempo certo para suas decisões, claro que não respondeu, já havia sido respondido com suas ações.
Quem lhe apoiava era seu irmão. Um imaturo, sem projeções de identidade e ainda sofrendo por não conseguir sair de sua bolha, mas acreditava que sua irmã conseguiria.
Nada disso ajudou.
Ela percebeu mais uma vez que estava sozinha.
Sozinha como sempre esteve.
Sozinha como estaria aos 80 anos caminhando na Redenção e olhando livros velhos, cachorros e crianças correndo...
Sim.
Embora, soubesse, que desta vez, sabia que era o certo a fazer.
Já poupara todos demais.
Já fazia um ano que fazia sua faxina dentro da cabeça. Identificou tantas podridões de sua família que andava mais leve por saber que não teria coragem de repeti-los e tão pouco de aceitar cada um deles. Aprendeu que no passado só podemos rever, jamais mudar, e sempre ler de uma forma diferente. Bonito isso, demorado e difícil.
Foi numa dessas grandes faxinas que tentou colocar pra fora uma sequencia de lembranças. Tentou ver de outra forma, mas não podia. Não havia como mudar aquilo.
Ela precisa ver e rever os fantasmas que não a deixavam dormir.
Encorajou-se, e foi.
Passou mal, falou bobagens. Relembrou os fatos que amava. Tentava lembrar de outros. Seu maior fantasma trouxe-lhe fatos que não estavam na memória. Foi maravilhoso.
Não teve coragem de tocá-lo. Afinal era uma memória. Arrependeu-se. Mas era melhor assim. Já vivera de sonhos por muitos anos para aplacar a fúria de sua realidade.
Foi embora. Feliz pelo que tivera e acreditava que recebera mais do que merecia.
Queria ter certezas. Queria saber mais. Sua voracidade por conhecer a deixava uma mulher insegura. E os inseguros se fartarão de seus “se”.
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