Naquele final de tarde, conseguiu ir até o laboratório e retirar os exames solicitados por sua médica - profissional a qual teve uma discussão sobre sexualidade e conceitos diferenciais, por isso levara dois meses para retirar os exames.
Chegou no balcão como se devesse explicações por não ter ido antes, fez piada da saúde, a atendente, educada, sorriu o mais simpáticamente possível. Imprimiu os exames e entregou para ela.
Já na calçada, foi abrindo o envelope e entre um poste de luz e outro ia focando os olhos atentos àquelas malditas letras minúsculas e seus refernciais de equilíbrio. Eram Ts sei o que, que ela sabia que era de tiróide, tudo normal, glicose também - ufa... salva para continuar a comer doces! - urina, trigli... sei o que... normal (aindda bem, teve uma época que teve que fazer um regime lá...), e então veio ele: colesterol. Esse sim, o normal: menos de 200 e ela com limite de 230, estava com 257! Mas da onde foi ter algo nessa altura???
Óbvio! Se desesperou, ligou para sua amiga pediatra - sim, parecia infantil, mas ela não queria falar com aquela megera da ginecologista e ter que lhe falar das intimidades de sua dieta, de seu sanguinho, de suas gorduras... - a recomendação foi caminhadas e corte nas gorduras.
Ligou pra sua mãe, apavorada:
- Mãe, me ajuda. Tô com colesterol alto, tô sentindo até meu coração bater diferente... Será que tá muito alto??? A Denise disse pra eu caminhar... acho que terei que fazer a academia... ai, não tô querendo, mas se for pra viver mais... acho que terei que...
- Minha filha, para de loucurada!!! Eu já cheguei a 370 e não morri. Fiz uma dieta sem carne vermelha, sem fritura, muita aveia, leite desnatado e claro, tem que caminhar e... - a mãe dela foi sugerindo opções do que comer e o que não comer, nisso elas se entendiam, coisas administrativas.
Ela conseguiu se reestruturar, mas não teve jeito, teve ue ir naquela academia, aquela que odiava - ou seriam todas? - e tentar ver horários para exercitar-se.
A atendente fez várias perguntas, incluse uma que, ao responder, precisa deixar claro: quero emagrecer!
Sim, ela queria emagrecer, mas não as custas daquela máquina infernal da esteira, embora odiasse as demais também. Sim, emagrecer, seria ótimo! Afinal, as dietas até eram relativamente boas, mas ela sentia muita fome, era uma mulher boa de garfo. Se dizia uma alma obesa, voraz, seduzida pelas iguarias diversas produzidas no paraíso chamado cozinha.
Teria que usar aquela malhas coladas, melhorar a postura, respirar e contar e fazer o exercício e sorrir...
eram muitos Es... muita coordenação para a cabeça dela, que, naquele momento tinha os pareceres dos alunos para digitar, corrigir materiais, sobreviver as cobranças por ela impostas e perfeccionista, administrar sua mente que queria se rebelar de tudo aquilo e viver na praia, afinar os ponteiros com o relógio, chegar em casa e resolver os problemas dos estudos do filho que sempre tinha alguma coisa para reclamar e tentar dizer com palavras diferentes que não gostava de inglês - uma vez que ficou proíbido reclamar dos professores e matérias... -.
Então, respirar, contar, cuidar da postura e sorrir, para ela era demais!!!
Viu uma velhinha correndo na esteira e pensou: até ela tá melhor que eu, que mundo cruel!!!
Matriculou-se!
Mais uma tentativa!
Buscou inspiração na barriga que não existia aos 18 anos.
Ah, se voltasse a não ter aquele pneuzinho... valeria a pena!
Se imaginou até dentro de um vestido - coisa que raramente vestia, mas achava que poderia ficar bem. Como certa vez a irmã de um namorado disse a ela: "que bonita, hoje tá de menina!"
Estar de menina... podia ser bom!
Estar de menina...
o que ele iria achar?
Será que poderia gostar?
E deu uma olhadela, ao sair da academia, para a esteira e pensou com seus botões: me espera, eu vou te domar, seremos amigas em prol do meu corpo de 18 anos de volta!
Ela colocou esperanças naquele tempo que viria.
E suas esperanças de beleza, saúde e disposição sempre tinham ele como um interlocutor mudo.
Ela mesma dizia as mulheres: tem que se depilar para se sentir bem, parar de fumar para a própria saúde, emagrecer para próprio deleite, ora, fazer tudo isso pra um homem que te troca amanhã ou depois e engorda de depressão... não comigo!!!
Agora, era com ela.
Sempre pensava nele, em estar bonita pra ele, apropriada, adequada, aceita... amada (?). E então o seu lado negro avisava: já passou o tempo!
E dessa vez, mesmo com a esperança que poderia ser mais bela aos olhos dele, falou pra si mesma: pelo menos eu vou fazer algo, melhorarei meu ritmo e meu tempo passará em favor de mim também.
(o que ninguém sabe é que ela sonha com ele, daquele jeitão que ele se diz descuidado. Não espera que ele emagreça, nem tão pouco mude o corte de cabelo, lhe parece perfeito como é. O que ninguém sabe é que quando ele a mandou partir para o mundo ela sentiu que não era boa o suficiente pra ele. E até hoje, se olha no espelho procura todo o traço de imperfeição para aceitar que não pode ser feliz!)
Pena, já disseram tantas vezes pra ela que é boa o suficiente pra conquistar muitas coisas na vida, pena, ela não acredita!!!
Nem eu!
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