terça-feira, 21 de setembro de 2010

Leituras e escritas

A competência de escrever é permeada pela insistência da leitura.

Até sei escrever, dentro dos campos acadêmicos. Utilizo com firmeza os teóricos. Posso escrever teoricamente e ainda, como alguns dizem, tontear o espectador ao ponto dele concordar comigo. Tenho, sim, uma abordagem agressiva do meu ponto de vista, quase nada humilde daquilo que defendo. As vezes, defendo o que nada tenho a ver com o objeto de defesa, ou seja, nenhum vínculo, nenhum ganho, nem faz parte das minhas ideias. Há vezes, que dependendo da criatura, posso e até gosto, de apenas discordar dela. Trago elementos que podem até ferir moralmente suas convicções. Chego no enigma da ética, apelo para que linha ela defende - e poucos tem consciencia de que faz uma tremenda diferença! - e então encerro o assunto, dando um suspiro longo e apresento a falta de argumentos por parte da vítima. É um espetáculo.

Depois, alguns, perguntam o que realmente acho, e as vezes até concordava com a vítima.
Mas pra que todo o teatro?
Infelizmente, dei-me conta disso agora. O prazer de provar que os outros estão errados até mesmo daquilo que julgavam estar certos, é a fundamentação de um espírito irriquieto com suas próprias certezas e incertezas.
Um ser humano que constrói sua cerquinha ao seu redor. Não dorme, só vigia a cerquinha. Passa diariamente a revizar os limites e sempre sabe que alguém, de alguma forma, invadio seu espaço.

Não coloca uma placa, poderia parecer estranho. Mas faz coisa pior: rosna a qualquer um que chegue perto. Rosna dizendo o quanto seu conteúdo é imenso, quão intolerante aos erros é, quão perfeccionista e detalhista aos possíveis tons da voz podem ser percebidos e traduzidos...

A desconfiança é o veneno que corre em suas veiai e artérias. A incerteza é a esquizofrenia de sua vida.

Então o que faz?
Lê.
Diz que ama ler.
Ao ler, pode até se chocar com o autor, mas não pode dialogar. Embora, tenha ações diferentes: ignora o livro, faz comentários terríveis a partir de uma frase que interpreta como centro do assunto, argumenta pelo ponto de vista machista e elitista do autor, descobre os podres do autor e se fosse possível, atormentaria seus sonhos. Nunca se desfaz dos livros. Estão lá lidos em completude ou não.

Depois disso, consegue conversar com velhinhas nas paradas dos ônibus, sendo a moça simpática que preserva os princípios morais antigos. Balela. Mais uma vez, usa seu conhecimento, mas para seduzir - qual o ganho de seduzir velhinhas? poder escutar delas que está certa.

Pronto. Depois da insegurança, desconfiança, pode voltar pra casa com a certeza que alguém a acha certa.

Se há alguém desprovida de certezas sou eu.
E é por isso que não tomo determinadas atitudes que poderiam edificar minha vida, por não ter certeza se é o certo a fazer.
Interessante, quem sempre tem opinião pra tudo, não se dá o direito de apenas viver com quem quer, mas de sobreviver ao que já tem.

Acostumar-se com uma dor parece melhor que tentar outra dor. A infelicidade é uma dor. Mas a incerteza de ser feliz...

Então, agora que sei que tudo isso é maior bobagem: provar que estou certa para me certificar que o que penso é bom, talves seja o momento de fazer o que é bom na incerteza do caminho.

É complicado mudar o prisma. Mas como não acredito em destino... Cabe a mim, agora, uma leitora inveterada, reler a vida. Parar de brigar com o autor que sou eu mesma, lagar o rascunho e escrever de vez o livro da minha existência.

Nenhum comentário:

Postar um comentário