segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Ignorância

Sempre digo que a maior alegria do ser humano é a ignorância.
Há vários textos, inclusive na Bíblia que podem clarear o assunto - aqui não quero colocar o texto sagrado, mas o registro de um povo, de uma cultura antiga -, no livro de Gênesis fala de um fruto do conhecimento, ora, isso é um mito quanto a curiosidade, a vontade de aprender e "ver" diferente. Claro, os hebreus queriam deixar claro o quanto sua vida era pesarosa, e alguém preisava levar a "culpa", logo, uma mulher, que ficara longe da presença masculina (a voz da razão?) conseguiu fazer o que todos queriam: ter conhecimento. Contudo, ela pagou o preço. Os registros indicam que ela teria dores de parto doloridíssimas e sua vontade estaria na permissão do marido (um monte de blablás para justificar a natureza!!! e claro, o patriarquismo).
O óbvio foi, que com esse mito, ninguém viu o que deveria: a suposta Eva, descobriu. Descobriu alguns segredos: quanto o ser humano pode ser falho, desonesto, hipócrita, egoísta, mal, corrupto. Afinal, ela conversou com a "cobra", aqui uma figura bela e malígna, dando a ela uma lição de sobrevivência ao mundo patriarcal. O suposto Adão apenas desobedeceu, e por amor. - na minha opinião ele ficou com medo de perder o brinquedo, e por isso fez o que Eva queria, imaginem aquela mulher, nua, linda dizendo: coma, é tão booommmm.

A ignorancia seria um grande dom. Eva se daria melhor sem o conhecimento. Ela acharia que tudo aquilo era assim mesmo. Mas como teve lições ardilosas com a cobra, soube como enganar muito bem seu marido, ensinou isso a suas filhas...
Vimos no mesmo livro, a história de Tamar, a história de Diná. Mulheres que de alguma maneira enfrentaram o povo e família por terem conhecimento. Foi o conhecimento que as deixou impetuosas!!!

Lembro-me de minha infância. Tudo eram borboletas. Hoje vejo o desastre que me acometeu. Se não tivesse conhecimento, poderia ser ignorantemente feliz.

A ignorância é um dom.

Veja a alegria de uma criança ao receber um presente: é tudo!
Veja a demonstração de carinho de um adolescente com um presente a sua namorada: vida.
Observe atentamente um presente que um marido de 15 anos de casado dá a sua esposa: "que? um microondas novo?" - fica explicito: o presente é para a tarefa, não pra pessoa. Se a mulher ainda tiver a bênção da ignorância dirá: "oh, meu amor, quanta gentileza me ajudar no meu trabalho, esse sim foi um belo presente!"
Mas se for uma feminista: ela jogará o micro pela janela.

Hoje em dia, é difícil conversar com pessoas com a divina ignorância de fábrica, a ignorancia plena de caridade, de melhor do ser humano. Essas pessoas sempre acham uma justificativa para as porquices que nossos políticos fazem, das maracutaias que fazem com o povo e até mesmo das puxadas de tapete que teu colega de serviço faz contigo. O mundo deles é ainda feito de borboletas, e quando elas somem a resposta é clara: ora, é inverno!

Aprendi a sorrir para essas pessoas. Porque não sou a serpente, não conseguirei convencer que devemos amar as pessoas, mas estarmos de olhos abertos as suas desvalias.

Eu acredito em transformações. As pessoas podem, se quiserem, mudar. O problema é que, além de difícil, caro e leva tempo, as pessoas não querem mudar. Mudar é reconhecer o que está ruim, e reconhecer isso é ver sua podridão, suas culpas e tristezas a flor da pele. Lidar com isso que estava lá no fundo lago (com todo o lodo e putrefação...) é algo difícil de enfrentar.

A ignorância nos permite flutuar no lago. É um barco seguro.

Mas para aqueles que querem dar o mergulho, é preciso prender a respiração, ter coração forte e braços atléticos para nadar.
Alguns ficam loucos, pois é assim que se pode romper com essa dor. Outros, podem até se afogar, usam drogas para esquecer o que viram no fundo do lago. Outros, buscam os tesouros escondidos, sujos e maltratados; os retiram, limpam, e colocam em uma prateleira como recordações. Voltam ao lago para separar o que é possivel ser resgatado e o que é preciso retirar para parar de poluir.

São poucas as pessoas que buscam discernir entre o construtivo, valioso e belo do que arruina a vida como um verme a comer as próprias entranhas.

Enfim, se você não tem coragem e força sufiente pra olhar a face do abismo, não fale com a serpente, tão pouco coma o fruto do conhecimento. Uma vez ingerido, você, provavelmente será muito infeliz.
Infeliz, porque as borboletas e o jardim eram uma ilusão, a bondade nas pessoas são raras e seu egoismo é maior que sua barriga.

No mito da criação em Gênesis, o casal é expulso do paraíso e perambulava pela face da terra a própria sorte. Viram a ferocidade dos animais, a terra improdutiva, a chuva que não vinha, o filho doente, a morte sem esperança. Mas, quem sabe, também viram: a primavera após o inverno, os nascimentos, a confiança dos animais domésticos, o cão ao lado da casa, os pássaros cantando...

Enfim, a vida nos dá um dom, buscamos o conhecimento para termos liberdade de esscolha, depois nos alarmamos com o que os outros e nós mesmos fazemos com o conhecimento.
Diariamente a vida nos dá pinceladas daquela infância: borboletas, cantos, demonstrações públicas de carinho e cuidado.

Embora, eu creia veementemente que a ignorância seja o mais belo dom que podemos receber, ainda assim, creio que se nos dispormos a conhecermo-nos podemos encontrar tesouros magníficos dentro de nós mesmos. Ao descobrir nossa riqueza é que iremos poder partilhar com os demais.

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