quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Passado

Ela foi até o fundo de si mesma e decidiu fazer o inesperado. Entrou em um ônibus e foi atrás de um passado distante.
Encontrou um de seus começos, cerca de 15 anos de tempo haviam passado e ela, despida fez amor com o seu criador.
Voltou no tempo, refez seu espaço, andou sobre sonhos e expectativas... deu-se conta do seu ser, mudado com tudo lhe aconteceu, testou, experienciou nessa vida.
Ao sair, bateu a porta, afinal, havia ido lá para encontrar-se e o fez.
Olhou bem pra si mesma, merecia cada ato amoroso, cada carícia, cada movimento dos corpos... mas isso nunca a pertenceu de verdade, sempre fora instantes, momentos apenas que jamais deviam ser refeitos.
Depois de abandonar-se, buscou-se intensamente, descobriu-se nua e com frio no meio de tudo.
No meio de si, no meio do mundo, no meio da confusão de amores e paixões pelas quais se dedicou com tanto afinco... e deixou-se ali, chorando aos prantos...
Seu soluçar encomodou-a. Resolveu consolar-se e ao enrolar os seus braços ao longo do corpo de um alguém, viu-se com medo de amar.
Porque amar é perigoso, é destruidor. Não sabia mais se deveria continuar a tentar iludir-se com aquele cujos seus olhos não paravam de admirar...
Dentre seus amores, seus temores, seus maiores pudores ela resurge forte, como o sonho dos fracos. Então, ela retorna de tudo e olha-se no espelho. Longo caminho ela teve, tortuoso, pesaroso e doloroso. Tudo estava escrito em sua face, abaixo de sua tensa pele.
Ela observava o passado subcutâneo mover-se em seu rosto e sentia cada toque que o destino havia lhe marcado.
Com grande ódio tentou rasgar aquele véu que a separava do real... pena, não existiam formas de concretizar o que um dia já fora... o tempo tinha passado e mudado seus traços, alguns ainda estávam lá, no profundo de suas temporas... mas muito já mudara.

Já havia mudado seu destino, seu riso, seu desabroxar, seu coração e sua mente. Desistiu de amar, de permitir-se ser amada... Por isso, seu encontro com o passado foi aterrador: primeiro buscou-o com a intensão de recomeçar, depois de ser amada, de ser desejada e finalmente obter as respostas.
Não haviam respostas.
Nunca há respostas.
Nunca houve.
Tão pouco as terá pela boca ou toque de alguém.

As respostas fazem morada dentro de si mesma e ela já as havia trancafiado em algum espaço dentro de seus pensamentos, para proteger-se do pior e do melhor. A proteção que sempre esteve ao seu lado era, na verdade, seu maior inimigo disfarçado de amante nas noites frias de seu viver.
Buscou a chave, implorou pelo regresso das verdades tão maravilhosas e tão nefastas... Após muito diálogo, conquistou novamente seu título de senhora de seu destino e avançou com a glória dos vencedores...

Afagou a maçaneta e delicadamente girou a chave... depois disso, ninguém mais a viu - ao menos, não do mesmo jeito.

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