Fui num lugar, Preto Zé, em Porto Alegre, Cidade Baixa. Meu irmão me convenceu a sair, afinal, ando, segundo ele, muito mal – vem cá minha cara deve estar um lixo, pois a psicóloga não queria me deixar passar o feriado sem vê-la, segundo meu irmão eu rio das piadas mais idiotas e aparentemente sem sentido... ou pior ainda, não ando entendendo mais as que realmente deveriam de ter algum sentido – então fomos.
A caminho, ele me desafiou a falar com quem eu queria estar naquela noite. Mandei um torpedo, então ele me disse: isso não é falar com a pessoa, me dá essa coisa aí. Pegou o número do torpedo e ligou pro cara. Eu juro, queria que um buraco se abrisse. Mas, após um telefonema constrangedor pra mim, meu irmão só sacudia a cabeça e dizia, só tu, só tu mesmo pra se colocar assim... nessas situações... e reclamava...
Chegamos no estacionamento e perguntei a ele: com cara da família(cito o nome da família do nosso pai) ou sem? Ele me responde, fica por tua conta. Explicando aqui: quando usamos essa expressão significa uma carranca de nenhum amigo, coisa que eu queria mesmo, afinal, eu queria era estar com ele. Estando com esse cara seria a glória.
Entramos no local. Fomos direto tomar uma Margarita. Não deu nada. Aquele negócio tava salgado. Aí, meu irmão viu, que só uma prá nós, seria nada. Pedimos a segunda. Então fomos para a parte de cima. O pior do pior foi que dois goles da bebida foram o suficiente para começarmos a zuar com as pessoas ao nosso redor. Haviam duas mulheres consideravelmente gordas com roupa curta, dançavam como se fossem as mulheres mais sexys do lugar. Uma super magra com dois afrodescendentes que pareciam mais empalhados. Também tinham os caras bombados, com cabelos arrumados ou desarrumados... depois de rirmos de todos esses e conseguir beber toda a margarita, decidimos descer. Ao descer, já bem adiantada e a cabeça rindo sobre tudo, fui dançar tudo que viesse, por pior que a música fosse quando eu, lúcida, certamente já teria desligado ou saído. Meu irmão me mostrou um cara alto (muito alto) com cabelo comprido e de preto e comentou sobre ele, do jeito debochado que estávamos fazendo antes. A coisa toda mudou. Ali, pensei: mas é tão bonitinho. Me virei e disse que achava bonito. Pro meu irmão, meus gostos são, digamos, estranhos. Passei muito tempo admirando, e vi que ele devia ser mais novo que eu. Eu ali, mesmo dançando, estava deslocada do mundo, do tempo, das coisas que sonhara e tive que abrir mão – aí descobri porque meu irmão fala que ando mal. O rapaz realmente transparecia o deslocamento, todos dançando ao seu redor e ele parado, raramente mexendo no cabelo e olhando para os lados. Quando ele olhava eu o encarava, ele desviava o olhar. Sim, era um deslocado. Estávamos deslocados!
Depois, de um tempo, meu irmão sumiu e fiquei sem saber o que fazer. Ao reencontrá-lo e bebermos uma cerveja, disse que o rapaz era realmente um fofo (porque me refiro assim, eu não sei!), meu irmão perguntou: porque não vai lá e agarra o cara. Aquilo soou de um jeito quase como invasão de privacidade. Como eu iria chegar e falar com o rapaz. Fazem cerca de 14 anos que não faço uma coisa dessas, o que diria? Resolvi falar a verdade.
Cheguei, toquei no sei braço e perguntei-lhe: tu parece um pouco deslocado, não? Ele disse que não era bem o que gostava mas que estava acompanhando uma amiga. E fomos conversando como podíamos, música alta dificulta muito. Ofereci minha cerveja, nossa, como eu ainda estava ali, falando com aquele gigante e sabendo que ele tinha 28 anos e eu 32. Me senti despindo o cara. Sim, consegui uns beijinhos do menino, mas não nos despedimos apropriadamente, o que fiquei, confesso um pouco (muito) chateada. Concluí com meu raciocínio alcoolizado que ele se foi por que sou velha. Conclusão triste, pois duas coisas estão em jogo: eu envelhecer e os demais serem jovens demais para ficar comigo ou velhos demais que eu não consigo querer.
Fiquei triste. Mas depois sonhei que ele voltava e se despedia.
Sabe o pior do pior com pessoas deslocados do seu tempo, das suas perspectivas é que as coisas mínimas nos deixam mal.
Uma voz dentro da minha cabeça diz (espero que não seja esquizofrenia): lembre-se do que foi bom. Foi ótimo, afinal, se eu estivesse em um estado deplorável, o cara nem tinha ficado comigo. É, tão ruim assim, não.
Concluo aqui, que, a minha visão sobre mim mesma precisa melhorar. E principalmente, saber, que ideais são a pior coisa que podemos construir, pois tudo que aparecer iremos compararmos ao ideal e jamais teremos a chance de poder ser feliz com o diferente.
Dar um basta nisso, com o coração e a razão é difícil, mas não impossível. Sou forte. Já provei “isso milhares de vezes e mais cem vezes”, então pra quê me torturar com isso.
Pois, como, uma mulher culta como eu, está fazendo isso com ela mesma. Sofrendo como uma viúva, arruinando a existência por alguém que, claro, não morreu – e isso parece que pra mim dá uma certa abertura para querê-lo –. Vamos seguindo como idiotas e perdendo nosso tempo. E continuo deslocada... ou sempre fui e percebi isso só agora que tentei muito ficar entre as pessoas.
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