Ela dirigiu-se a saída do restaurante, onde a recepcionista abriu a grande porta e disse-lhe palavras que não foram guardadas em sua memória. Desceu as escadas, sem olhar para trás. Olhar para trás, foi o que fez sempre, toda vez que saia porta fora após brigar com seu amante, e, ele nunca foi atrás dela. Ela simplesmente acostumou-se a sair para não mais voltar. Aprendeu a não pedir desculpas, uma vez que seria algum tipo de reconciliação, e, assim, também não aceitava as desculpas dos demais. Tolerava aquelas repetições idiotas aos seus ouvidos com os colegas de trabalho, afinal, era o seu ganha pão e ela, uma mulher que podia tranquilamente teatralizar um belo e meigo sorriso - quase um orgásmo rápido para mandar o imbecil embora rapidamente da cama.
Ela dirigiu-se a rua. Precisava de ar, como dizia sempre: o vento me deixa perto de minha mãe, o vento tira as nuvens dos meus pensamentos ou faz de tudo uma tempestade maior! Ela não se importava se veria melhor ou a situação ficaria ainda pior.
Caminhou com seu salto alto, um sapato bem elegante que fazia de sua postura uma mulher de chamar a atenção. Seu vestido, cujos ombros ficavam a mostra e seu corte a deixava moderna e sensual, agora, pouco importava. As lágrimas de ódio desceram por sua face cuidadosamente maquiada horas antes. O vento soprando em sua nuca desalinhava o cabelo que arrumara com tanto esmero. Ainda assim, ela sentia-se a última das mulheres...
Nem o vento, nem a temperatura da rua, tão pouco seu andar apressado, diminuíram suas emoções naqueles instantes. Sentou-se na calçada. Ali, respirou fundo e tentou compreender o todo. Não adiantava, é mais uma prova de sua falta de tolerância com as pessoas, principalmente, aos erros delas.
Errar é humano e perdoar é divino, ao menos é o que as pessoas dizem. Isso lhe passou pela cabeça, na luta por tentar se controlar, se acalmar.
Então, ali, na calçada, ela, uma mulher balzaquiana, experimenta o fel da realidade: uma solitária, amargurada, desesperançosa, desestruturada, desorganizada a respeito do que pensar sobre tudo aquilo... inspira e sente:
a dor, o amor, a solidão, a esperança, o ódio, o temor, o sofrimento, o rompimento, o desejo, buraco em seu peito, a dilaceração de sua alma e ainda observa cada pedaço debatendo-se no chão...
Com coragem de uma quase deusa, aprisionada em forma humana, ela junta cada pedaço, beijando e acariciando no reconhecimento que lhe pertence. Suspira e compreende que estar entre humanos é assim, desesperar-se por eles terem mudado de ideia, arruinar-se pelas decisões tomadas, odiar cada dia pela falta do outro, amar a sua aproximação e jamais esquecer cada passo inadequado. Talves um pouco mais, contudo, ela não era uma pessoa de receitas.
Levantou-se. Caminhou majestosamente na direção contrária ao do restaurante. Ela retornara a sua forma felina e audaciosa. Olhava aos transeuntes com olhar de perfurar suas almas e mesmo assim, causava espanto, curiosidade e muito medo. Seu ego se inundou de amor próprio, o que lhe fez optar pelo caminho de sua casa.
Pegou uma condução. Ao chegar, tirou os sapatos. Pegou uma velha jaqueta e embrulhou-se nela. Chamou seu amado gato e o abraçando levou para sua cama. O gato, em retribuição, ronronava e sua dona permitiu-se dormir. Por horas, sonhou.
Ao acordar e ver seu fiel animal deleitado em sua cama e ela "protegida" por seu casaco, fez a leitura que voltara a sua infância e adolescência - momentos marcantes, o gato, sua segurança nas noites escuras e, sua jaqueta que a aquecia nas madrugadas da cidade. Sim, após total turbulência, o que mais a consolou foi o de sempre: o seu passado.
Não adiantaria ter um belo vestido, uma magnífica maquiagem, a postura e as palavras adequadas se ele, mais uma vez, não a quisesse.
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