"O que mais me encanta, em você
É sua capacidade de me enlouquecer"
Ela escutava a música em seus ouvidos. Já era a quarta repetição. Assim como um analgésico, ela desligava-se do mundo real em suas lembranças. Mas ao voltar, sempre haveria a dor.
Era uma cicatriz profunda que ela nutria diariamente. A ferida, jamais se fechara totalmente, pois ela fazia questão de cutucar e não deixar fechar por completo. Era capaz de abrí-la com qualquer material, uma lâmina, um bisturi, uma pedra lascada, um estilete, a faca de passar margarina ou cortar o pão... o fio da tesoura... quarquer objeto pontiagudo. Ela podia estar alegre, mas ao ver a cicatriz, lembrava que deveria sentir novamente a dor.
A dor era, para ela, ao mesmo tempo a corporeidade da falta dele, assim como o recado de não mais confiar seu coração a mais ninguém. Por isso os segredos, as frases inacabadas, os olhares distantes, brilhantes e sedentos. A insegurança e a desconfiança fizeram dela uma mulher diferente: sóbria, discreta, opnativa, desejosa de aprender para provar seu valor aos demais - se não podem me amar, que me admirem! - pensava dentro de sua mente...
Então, quando todos já houvessem ido embora, pegava seus objetos preferidos: imagens, cartas e a faca. Cortava delicadamente a pele fina e maltratada, que sofria com mais um corte... pequenas gotas de sangue saiam de seu machucado e ela abominava o amor. Chorava, relia suas cartas, já amassadas, amadas, odiadas, repugnadas e mansamentes dobradas e guardadas como um evangelho. Olhava a carne dilacerada e contentava, mais um dia que enlouqueci por ele e sobrevivi. Claro, ela sabia que ele não fazia ideia de seu sofrimento. Ele seguia sua vida. Agora, um homem com seus próprios interesses. Um homem de palavras volupiosas, um perfume sempre condizente com o espaço, conversas adequadas, posturas impecavelmente pré-estabelecidas, tendo sempre uma opinião sobre os mais diferentes assuntos e um olhar sedutor - quem dentre a platéia não o desejaria?
Sim, ele a deixou. Cega. Num deserto. Sem água, sem direção, sem mais seu coração. Mandou-a embora como um cão sarnento, como alguém que você acaba de descobrir uma traição.
Ela, saiu sem direção, como já foi declarado. Vagou, buscou parcerias para sua dor, e escolheu ser mais prática.
Desta vez, não será o amor, mas alguns critérios. Buscou um parceiro, não um amante para as madrugadas de prazer e declarações de amor perpétuo, de descobertas dos toques no corpo, do calor entre os corpos que se amam incondicionalmente. Não. Ela só precisava de uma companhia.
Olhou. Delimitou. Avaliou e escolheu. Seguiu para o flerte. E como uma aranha, emaranhou a mente daquele pobre homem, que nada sabia de sua vida, que nada havia de pagar por sua solidão. Este, a aceitou.
Aparentemente a aceitou em seus defeitos e virtudes. As pessoas diziam que faziam um par bonito. Ela sorria, e lembrava que era preciso beliscar sua cicatriz para não deixar-se enganar pelas palavras dos outros.
Com o passar do tempo, passaram mais tempo juntos. Conheceram-se melhor, envolveram-se, e ela, voltou cada vez menos as suas feridas - estas agradeceram imensamente, e que puderam deixar de sangrar e finalmente tecer uma boa pele ali. - Vez que outra, topava com as coisas do, agora, outro. Recolheu tudo, embalou e até endereçou a residência dele, mas a coragem lhe faltou e do fundo do buraco onde um dia teve um coração, ecoou: é o que te resta dele!
Ela voltou a sua cicartriz, cortou-a profundamente, releu cada palavra, cada foto, cada imagem e provou seu sangue, amargo, doente, envenenado...
Sua vida voltou a ser um inferno!
Seu parceiro não compreendia o que se passava. Ela apenas dizia que era problema dela. Sim, o problema era dela, mas a culpa por ter envolvido alguém à sua dor, por ser egoísta e não se permitir a solidão, ela se culpava ainda mais!
Não haveria absolvição para esta alma, já sem coração, e egoísta. Onde estava os santos? Onde estava seu anjo da guarda? Onde estavam as pessoas de bem, quem iria consolá-la? A resposta era clara: ninguém.
Com o pouco de auto-piedade que lhe restou, juntou os pedaços, colou-os com seu sangue, olhou ao redor e decretou que sua vida apenas pertencia a ela mesma, que as pessoas até poderiam andar paralelamente a ela, mas jamais com ela. Era um vida de monólogos, ímpar, só, divertidamente egóica, com o ritmo de seus pés e o retumbante de suas memórias.
Agora, sem seu coração, já não entendia os casamentos, já nem ia a essas festividades e quando inquerida, dizia abertamente: "Não vou a lugar que não acredito na prece". Aniversários também eram deletados de sua agenda. Festividade com gente, como se referia, não faziam sua cabeça.
Mentira! Ela não queria se deparar com a felicidade dos demais e ela sem saber o que fazer com sua infelicidade. Essas reuniões apenas mostravam a ela a sua incompetência em dedicar-se a outra pessoa que não fosse seu ideal.
Por anos ela sofreu.
Por anos ela dilacerou sua alma.
Por muito tempo chorou.
Por um vasto período de sua vida desejou morrer e viver, amar novamente e odiar aquele homem.
Por alguns instantes sonhou com uma vida comum.
Por muitas noites sem fim ela viu sua vida passando.
Hoje, ainda tem as marcas: uma grande no peito, com o sonho de encontrar o Mágico de Óz para dar-lhe um coração; outros nas mãos, onde segurou seu coração transladado por inúmeros pedaços de lâminas que inclusive cortavam suas mãos cada vez que tentava reanimá-lo a bater. Ainda sonha com o som das batidas de seu jovem coração, que bela melodia fazia! Mas agora jaz, aos seus pés!
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