segunda-feira, 28 de março de 2011

Ela - o presente aterrador

Ela colocou o cd do Renato Russo e ouviu uma das músícas que pouco escutara dele em sua vida. Não que não gostasse ou que a música não hovesse sido sucesso suficiente. A questão é que a música lhe "falava" demais como suas lembranças se organizavam e ela sempre colocou cada coisa numa gavetinha pra que ninguém desarumasse. Ela também começou a entender que havia certas gavetas que não fechavam mais e isso a incomodava deveras.
Então, ouvindo a música começou a despir-se de si mesma, a cada estrofe...

Havia um tempo em que eu vivia



Um sentimento quase infantil


Havia o medo e a timidez


Todo um lado que você nunca viu

"Todo um lado que você nunca viu", sim, ele jamais viu minha timedez, sempre fui forte, decidida, impetuosa, mulher feita... Acho que nunca percebeu o quanto sou infantil em algumas coisas... ele perdeu isso no processo de afeição.

Seguiu ouvindo...

E agora eu ando correndo tanto



Procurando aquele novo lugar


Aquela festa o que me resta


Encontrar alguém legal pra ficar

Como eu corro, como ando apressada, fazendo mil coisas para estar sempre com o tempo completo. Uma procura de alguma coisa, talvez uma comida, uma bebida, uma pessoa para rir, dançar e calar.

E agora é tarde, acordo tarde



Do meu lado alguém que eu não conhecia


Outra criança adulterada


Pelos anos que a pintura escondia

Ainda nem sei que está e porque está ao meu lado. Me pergunto quanto mal já distribui, quantos corações já parti, quantas pessoas que sairam da minha presença sem lhe ter somado nada, de quantos eu maltratei com minhas alfinetadas maquiavélicas?
Quantos me amaram?
Eu não sei!

Ela ficou pensativa e chegou a parte do refão mais uma vez, o qual escutara, mas não havia, ainda, pensado sobre ele

E agora eu vejo,



Que aquele beijo era mesmo o fim


Era o começo e o meu desejo se perdeu de mim

Então, foi que não lembrava mais do beijo.

Sonhava, que um dia o beijaria, mas, como seria? Ela, com todo impasse de sua existência, uma infantilidade e todo um lado que a maioria das pessoas nunca via, como poderia?

Prefiriu mudar de pensamento, pois coisas boas acontecem, para pessoas que merecem. Ela acreditava que o destino não iria lhe sorrir novamente.
Agora, com os pés na realidade que conhecia, na inércia da sua existência, sofria calada pelo próprio coração. Pensava em cantar uma cantiga pra ele, mas corações precisam ser fortes nesses momentos e desistiu de acarinhá-lo.

Levantou-se. Mais um dia começara e ela, como sempre, sentia-se atrasada, perdendo alguma coisa de muito importante que não sabia o que.

Tomou seu chá habitual. sentou-se a mesa de seu trabalho e chorou suas perdas. Trabalhou, entregou-os meticulosamente organizados e caprichados. Recebeu elogios.
A tarde, foi feliz com seus alunos, ensinou, corrigiu, sorriu, relembrou... escreveu no quadro, acatou ordens, ficou nervosa com a apresentação do trabalho do dia seguinte.
Não dormiu a noite.
Estava podre na manhã seguinte com pilhas de materias para organizar para a reunião. Viveu esse dia com toda a ansiedade e preocupações que somente seu pensamento era capaz de ter.

A noite, olhou o relógio, observou bem, olhava a todos os lados. Parecia que todos a olhavam. Vestia uma roupa simples e aguardava o momento decisivo de sua vida. Mas não deixava de pensar: Será que ele vem?

E seu presente momento era de um terror massante. um universo de perguntas sem respostas e um turbilhão de sentimentos horríveis a infestaram o corpo.

Queria poder ter a chance de se explicar, de narrar sua tragetória, de ouvir um sim, de ao menos olhar nos olhos dele e ele retribuir.

Mas essas coisas eram desejo. E esse desejo era assassinado pelo seu pensamento: não poderá receber isso.

E passou alguns minutos até que ele chegou.

 

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