sábado, 22 de janeiro de 2011

Mediocridade

Ela vivia na linha da mediocridade.
Ela sabia que tinha muita reflexão sobre a vida, mas sem público, vivia na mediocridade que um ser humano pode viver...
Quem sabe com algumas oposições: não assistia novelas - era o alimento dos sem cérebro, dos sem assunto, uma vez que você entra no ônibus e tem sempre uma senhora meio rechonchuda falando como o ator está fazendo tão bem seu papel e que a crápula da outra está acabando de vez com a trama...
também não assistia nenhum programa popular: ratinho, Faustão, Gugu... era o ópio do povo que aderiu aos comentários de pessoas que tem muito dinheiro rindo da população e fazendo programações que nada mudam o cenário brasileiro...
Deixava claro que filmes e cds piratas não entrariam em sua casa ou em seu ambiente de trabalho, ora, como admitir a falcatrua de não compensar o trabalho de um artista?

Pois é... cada vez mais desprezada pelo mar de gente ao seu redor, que não podia escutar suas reflexões sobre a vida podre que cada um, a sua maneira vivia e nutria a própria demência... Ela, vivia na linha da mediocridade, na solidão dos pensadores que pós morte serão citados e seus ecos não os acordarão do sono eterno...

Sim, ela revoltava-se. Não com a falta de aplausos, mas com a falta de ética.
As pessoas vão te odiar por falar a verdade, vão te desculpar por mentir e te amar por sua hipocrisia.

Bem-vindo ao mundo real - podre, fétido e pútrefo. Onde as mais lindas declarações de amor se dão a beira da cama... Onde os disursos de transparência estão sordidamente engendrados na corrupção... Onde as parcerias são uma relação parasitárias... onde os ideais de fraternidade, igualdade e solidariedade são bordados em bandeiras e poucos vividos...

Sim, vivia na linha da mediocridade, sem poder respirar direito, sem poder viver seus ideais, sem poder dizer sobre seu amor - trancafiado a sete chaves e com o peso dos anos...-, sobre seu trabalho e disposição para a mudança...

O pior não é descobrir o que é real, nem tão pouco viver nele... o pior, realmente o pior é saber que dentro desse real preservado pela substanciosa maioria é que você dificilmente vai concretamente mudar algo e se mudar, só será visto pós morte, ou, nem será visto, aproveitado e você passou a vida toda, a tua existência nesse mundo tentando e não obtendo sucesso.

O pior, acho, é ter que mediocremente, como ela, viver em meio dessa gente, que se fala, e tua voz volta pra ti, como música cantada no banheiro.

2 comentários:

  1. Ás vezes é melhor ouvir nossa voz voltando, como no banheiro, do que ouvir o que os outros falam. Normalmente a gente concorda consigo mesmo...

    Quase sempre...

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  2. Nossa, isso ajudou bastante...
    No meu caso, gosto muito das minhas teorias, as vezes, mais do que as dos outros!

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